A admissão na UCI é, ao mesmo tempo, sinal da gravidade da situação do doente e da intensidade dos tratamentos instituídos. Estes tratamentos nem sempre são suficientes para salvar a vida; nenhum tratamento é inócuo e todos podem causar complicações, mas também sofrimento ao doente. É por esta razão que é essencial que o plano terapêutico seja ajustado à situação de saúde única, e em constante evolução, do doente, mas também aos seus desejos e aos seus valores. Para isso, os testemunhos dos familiares são extremamente valiosos para as equipas de saúde, ajudando-as a perceber melhor quem é o doente e o que ele desejaria para si próprio.
A lei francesa prevê duas possibilidades para conhecer os desejos de um doente inconsciente no âmbito das decisões sobre o plano terapêutico: a pessoa de confiança (personne de confiance) e as diretivas antecipadas de vontade. As diretivas antecipadas de vontade são uma forma de deixar escritos, com antecedência, os seus desejos para o caso de não estar em condições de dar a sua opinião. Podem ser redigidas em papel livre, seguir o modelo proposto pelo Ministério da Saúde francês ou ainda utilizar o formulário específico para os cuidados intensivos proposto pela Sociedade de Medicina Intensiva de Língua Francesa (Société de Réanimation de Langue Française).
Durante o internamento na UCI, a evolução do estado de saúde do doente pode levar a questionar se os tratamentos em curso fazem sentido. A ausência de benefício esperado, apesar de cuidados pesados e por vezes agressivos para o doente, pode levar a limitar a utilização de certos tratamentos ou a suspender outros, ou mesmo a manter apenas os tratamentos destinados a assegurar o conforto. De facto, em França, a obstinação terapêutica é proibida por lei. Os cuidados mais adequados exigem, por vezes, encontrar um equilíbrio delicado, mas pode ter a certeza de que as equipas de saúde dos cuidados intensivos estão muito atentas a este aspeto. Não hesite em partilhar com elas as suas dúvidas, as suas preocupações ou o que eventualmente não compreenda nos cuidados prestados ao seu familiar.
Quando um doente não vai beneficiar de certos tratamentos, ou já não beneficia dos tratamentos instituídos, e para limitar ao máximo o desconforto, a dor e a angústia que estes provocam, esses tratamentos podem não ser iniciados ou ser suspensos. Desde 2004, e mais recentemente em 2016, as leis Leonetti e Claeys-Leonetti enquadram aquilo a que se chama decisões de «limitação e suspensão dos tratamentos» (LAT, limitação do esforço terapêutico). Estas decisões são tomadas de forma concertada com toda a equipa de saúde e com um consultor externo, tendo em conta os desejos expressos pelo doente e informando com rigor as pessoas que lhe são próximas. Estas decisões são reavaliadas todos os dias em função da evolução do estado do doente.
A suspensão de certos tratamentos que mantêm a vida artificialmente pode acelerar o processo de morte. Nesse caso, as equipas de saúde instituem ou reforçam os cuidados paliativos, cuidados que visam o conforto e o alívio dos sintomas. Desde 2016, a lei francesa autoriza a «sedação profunda e contínua até à morte», permitindo assim um fim de vida tão confortável quanto possível aos doentes em causa.
As decisões de limitação e/ou suspensão de tratamentos são decisões médicas baseadas numa concertação multiprofissional e multidisciplinar (o “procedimento colegial”), que tem em conta o estado inicial do doente, a sua doença, o seu prognóstico (os futuros possíveis na sua situação), as terapêuticas possíveis e os riscos que lhes são inerentes, bem como os desejos e os valores do doente. Os testemunhos dos familiares são fundamentais para tomar as decisões mais justas para cada doente, e a sua opinião é sempre procurada; no entanto, a decisão continua a ser médica, evitando assim que o peso destas decisões e das suas consequências recaia sobre os familiares.
Se uma pessoa de confiança tiver sido designada pelo doente, a lei prevê que o seu testemunho prevaleça sobre o dos outros membros da família. Em todos os casos, quando se discute uma decisão de limitação ou de suspensão dos tratamentos, é importante que os familiares possam dar testemunho dos desejos e dos valores do doente pondo de lado, tanto quanto possível, os seus próprios sentimentos e desejos. Conversar com a equipa de saúde ou com um psicólogo pode ajudá-lo a distinguir as coisas e a participar na construção, para o seu familiar, do plano de cuidados mais adequado àquilo que ele teria desejado para si próprio.