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Tornar-se, de um dia para o outro, familiar cuidador de uma pessoa internada em cuidados intensivos altera profundamente a vida quotidiana: as deslocações constantes ao hospital, as horas passadas junto do familiar, a preocupação e a perda de referências são muitas vezes esgotantes, tanto física como emocionalmente.
Para além do choque dos primeiros dias, todo o quotidiano tem de ser reorganizado, e as responsabilidades pessoais, profissionais e familiares podem passar para segundo plano.
Fazer compras, preparar refeições, tratar da casa, gerir as atividades extracurriculares das crianças ou cuidar dos animais pode exigir muita — por vezes demasiada — energia, num período em que é necessário concentrá-la no familiar internado.
Uma primeira forma de ajudar os cuidadores pode, portanto, ser oferecer apoio prático. Eis algumas ideias de tarefas em que poderá propor ajuda, de acordo com aquilo que se sente capaz de fazer:
As deslocações de carro entre casa e o hospital podem ser desgastantes. Oferecer-se para levar e/ou ir buscar os cuidadores, para evitar que conduzam sob o efeito do cansaço ou do choque emocional, especialmente no dia em que recebem a notícia, pode ser uma ajuda muito valiosa.Se vive perto do hospital, pode oferecer alojamento temporário aos familiares cuidadores para facilitar as deslocações entre casa e o hospital. Mesmo que não pernoitem, disponibilizar um espaço onde possam descansar durante o dia e afastar-se um pouco do ambiente hospitalar pode ser muito reconfortante.Se os cuidadores tiverem filhos, pode oferecer-se para os levar à escola, às atividades extracurriculares, ou recebê-los em sua casa durante uma tarde ou uma noite. Além de ajudar os pais, isso pode contribuir para manter alguma normalidade no quotidiano das crianças, o que é especialmente importante nestes momentos difíceis. Pode também permitir aos pais fazer uma pequena pausa, descansar e cuidar de si próprios.Se os cuidadores tiverem um animal de estimação, pode oferecer-se para cuidar dele: passar algum tempo com o animal, alimentá-lo, levá-lo a passear ou até acolhê-lo temporariamente em sua casa, se for possível. Isto pode aliviar bastante o quotidiano dos cuidadores e também diminuir o sentimento de culpa por não conseguirem cuidar do animal como habitualmente.Pode também oferecer apoio na organização do dia a dia: por exemplo, ajudar um pouco na limpeza e arrumação da casa, nas compras ou na preparação de refeições quentes ou fáceis de congelar. Depois de um longo dia no hospital, saber que há uma refeição reconfortante à espera em casa, sem ser preciso fazer compras ou cozinhar, é um grande alívio.Se os cuidadores estiverem recetivos à ideia, pode ainda oferecer-se para os substituir durante algum tempo junto do familiar internado. Isso pode dar-lhes tempo para se concentrarem em si próprios ou tratar de tarefas que não podem esperar, sem sentirem culpa por deixar o familiar sozinho.
Se pretende apoiar os familiares cuidadores, a sua simples presença, mesmo à distância, já será muito valiosa para os ajudar a aguentar. Ouvi-los e mostrar-lhes, através de pequenos gestos, que está presente ajudará a que se sintam acompanhados durante esta experiência difícil.
Talvez, de forma espontânea, se sinta muito à vontade no papel de apoio aos familiares cuidadores.
Mas também é possível que se sinta intimidado com a ideia de ir ao hospital ou de ficar a sós com alguém que está a enfrentar uma situação tão difícil. Pode recear não saber o que dizer ou não encontrar as palavras certas. Pode sentir-se perdido, impotente, perguntar-se qual é o seu lugar nesta história ou se não estará a ser demasiado intrusivo. Pode, por fim, recear ser mais um peso do que um conforto.
É compreensível sentir-se assim. A situação não é fácil para ninguém e é preciso coragem para se disponibilizar para apoiar os cuidadores. Não existem palavras perfeitas, e o conforto que lhes poderá oferecer estará muitas vezes mais ligado à sua presença e ao sentimento de não estarem sozinhos.
O mais importante é manter-se disponível: pode perguntar-lhes se gostariam que os fosse ver — no hospital, em casa ou noutro local — ou se precisam de algum tempo para si. Se os visitar, lembre-se de que provavelmente estarão cansados. Pode ser sensato limitar a duração desses encontros, sobretudo se notar sinais de cansaço.
Pode, por exemplo, enviar-lhes uma pequena mensagem de vez em quando para dizer que está a pensar neles ou perguntar se precisam de alguma coisa.
Pode também propor visitá-los no hospital: os cuidadores passam muitas vezes longas horas na sala de espera da unidade de cuidados intensivos, nomeadamente enquanto são prestados cuidados ou realizados exames ao familiar. Uma presença conhecida pode trazer algum conforto e proximidade nos momentos em que os pensamentos se tornam difíceis de controlar e a ansiedade aumenta.
Consoante a vontade deles, pode também propor um momento fora do hospital, seja para tomar um café ou dar um pequeno passeio. Quando estiver com eles, pode perguntar se querem falar sobre o que estão a viver ou, pelo contrário, sobre outra coisa qualquer. Pode, por exemplo, trazer-lhes algumas notícias do «mundo exterior», de amigos em comum ou do quotidiano, ou propor uma atividade que os ajude a distrair-se (ir ao cinema, por exemplo).
De um modo mais geral, não hesite em perguntar-lhes diretamente de que precisam ou o que gostariam, e esteja disponível para ouvir. Nomeadamente os seus medos e preocupações. Não precisa de apresentar soluções: proporcionar-lhes um espaço onde possam falar livremente já será uma grande ajuda e permitirá aliviar as emoções intensas que se podem acumular ao longo de um dia nos cuidados intensivos. Por fim, não hesite em enviar-lhes uma pequena mensagem de vez em quando para saber se as suas necessidades mudaram.
Testemunho de Céline Receber ajuda e apoio